O Viajante

Muito se discorre sobre o que é ser, e toda vez que nós, seres humanos, nos deparamos com a tarefa de falar sobre nós mesmos acabamos listando mil coisas que fazemos, sentimos, nos envolvemos ou como reagimos ao meio. Mas nunca dizemos quem realmente somos, primeiro por que nunca paramos realmente para analisar o que esta pergunta (quem sou eu?) realmente significa e segundo por que é simplesmente impossível resumir em algumas frases o que nem nós mesmos conhecemos.

Na realidade, nós conhecemos mais a nós mesmos através de outros olhos do que conhecemos por nossas próprias conclusões. E toda vez que paramos para pensar em quem nós somos acabamos perdidos, algumas vezes felizes, outras tristes, muitas vezes cansados mas no fim, estamos sempre perdidos e  logo nos distraímos com qualquer outra coisa.

Mas nem sempre precisamos parar, e na verdade, todo meu discurso absolutista sobre como os seres humanos definem a si mesmos se torna inválido a partir do momento em que, eu mesmo, passo a desconsiderar o que eu faço ou o que me cerca para me concentrar na minha alma. Assim como eu, muitos viajantes em alguma fase da vida olham dentro dos próprios corações, desfrutam de um tempo de solitude, e decidem o próximo passo baseados no que admitiram, naquele momento, através de pensamentos e conexões que já os acompanhavam há muito tempo, o que realmente os define como homens.

O grande problema, é que desde que eu iniciei esta jornada dentro de mim, eu não parei. Eu já vivi muito tempo, já se passaram tantos anos, que eu já não conto mais. Não lembro dos dias em que nasci, não me recordo das vezes em que morri. E o que achei que levaria não mais que um instante para descansar de um dia veloz, me prendeu nas sombras da minha mente e me deixa cada vez mais atado em minhas próprias memórias.

No início, tentei olhar para mim agora, no presente momento, tentei me enxergar como os outros me enxergam, com o intuito de explorar aos poucos minha real essência. Tentei perceber o que realmente fazia parte de mim e o que eu havia construído para minha própria proteção. Não durou muito para perceber que sou muito obscuro, não tenho muitos amigos, e os poucos que tenho não fazem a mínima ideia de quem sou, do que realmente me move. Sou um grande ponto de interrogação, deixo escapar poucas coisas, não diria que sou calado nem introvertido, pelo contrario, eu falo bastante, me divirto bastante, algumas vezes estou em contato constante com muitas pessoas, mas sempre me dou o direito de me reservar, de me separar, de ser eu em mim mesmo, não sei a razão pela qual sempre agi dessa forma, talvez por um instante eu tenha captado um traço de quem realmente sou, mas é um mero traço, não sou eu, faz parte de mim mas não me define.

Passei anos tentando avançar, mas o que eu conseguia nunca chegava perto do que eu queria, não respondia um centésimo das minhas milhares de perguntas, só me deixava mais angustiado e mais aflito, então estabeleci a meta mais tola da minha vida. Estabeleci que ia partir em uma jornada a procura de mim mesmo, e que não voltaria até que esta estivesse cumprida. Nunca regressei. Hoje certamente sei que me conheço muito mais do que antes e que uma das melhores e mais eficazes de conhecer a si mesmo é a introspecção, o diálogo comigo, mas de forma alguma completamos o ciclo e nos tornamos doutores em auto-conhecimento.

O mais incrível de tudo, é que apesar de ter passado toda minha vida comigo e de ter separado os últimos tempos para me descobrir, a minha essência é tão certa e distante para mim como o horizonte no mar. Por mais que eu corra na direção certa, nunca vou alcançá-la, e o que me resta, é sentar, e contemplar a beleza do mistério que sou dentro de mim. Eu não preciso saber exatamente do que sou feito para desfrutar o melhor que essa vida pode oferecer. Sou obstinado, não vou desistir agora, ainda procuro a mim mesmo nesse emaranhado de impulsos elétricos que chamamos de mente. Mas estou disposto a parar de tentar sozinho, e descobrir junto. Continuo na minha jornada, sigo o meu rumo menos preocupado com a finalidade, focado em aproveitar cada segundo da descoberta.

Disposto a me dividir com quem amo, para conhecer melhor a mim, manifestado sem reservas no outro continuo em uma busca que, por mais que não tenha fim, finalmente me define, é minha máquina motriz. Mesmo obscuro, mesmo reservado, mesmo sabendo que pouquíssimas pessoas saberão quem realmente sou (talvez só uma), quero compartilhar com o mundo minhas descobertas. Não como uma vitrine da minha vida em busca de promoção, auto-afirmação, mas no intuito de ajudar os que se buscam a buscar e desfrutar do que realmente vale a pena nessa vida, que é a própria vida, afinal, só temos uma.


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